Porque me disseste todas aquelas coisas? Porque falaste para mim com aquela entoação? Porque me olhaste daquela forma enquanto me ias abalando com as palavras que proferias?
Porque vejo um brilho no teu olhar quando falas para mim?
Porque me fazes sentir assim? Porque me fazes duvidar de tudo? Porque me fazes repensar toda a minha vida?
O que queres de mim? O que tens para mim? O que posso ter para ti?
Porque é que às vezes nos custa tanto aprender? Porque é que não damos ouvidos a nós próprios mais frequentemente? Quantos de nós não disseram já, em diversas ocasiões, “não volto a repetir isto” ou “ não vale a pena insistir”, mas acabando sempre por reincidir, ignorando o conhecimento prévio e acreditando que será diferente?
Porque é que voltei? Porque estou aqui mais uma vez? O que estou aqui a fazer?
Ao segundo dia o arrependimento já apareceu. Arrependimento não, a frustração por obter o mesmo resultado, a culpa de não ter mantido a decisão anterior. E o sentimento de inutilidade daí resultante.
Ontem chorei por ti! Todos os dias penso em ti, mas há dias, momentos, acontecimentos, que são mais difíceis, que tornam tudo mais duro. Recordo cada minuto do dia em que partiste. Lembro-me de onde estive, onde fui, tudo o que fiz. Guardo várias mensagens que recebi. Mensagens de apoio, de incentivo, de força. Mensagens que me lembram que fiz tudo por ti, sem olhar a meios, sacrifícios, despesas. Que não podia controlar o avanço da doença. Que a culpa não é minha. Que devia guardar os momentos felizes que tivemos, que me deste, a tua vivacidade e alegria. Que é essa a marca que deixaste na minha vida. E, no entanto, não consigo esquecer as últimas semanas que passámos juntos, o sofrimento, o ver-te definhar, especialmente o dia em que senti que deixaste de lutar, por já não teres força. Ou talvez por saberes que já não tinhas hipótese, que ias perder. Que era melhor desistir, atirar a toalha, e ter a dignidade de enfrentar o teu destino de cabeça erguida e vontade inabalável. Mas fiquei sempre com a sensação que falhei, que não fiz tudo, que não tratei de algo atempadamente, que não falei com todas as pessoas que podiam ter travado o curso dos acontecimentos, que não fui capaz de resolver todos os problemas. E, por isso, partiste. Espero que esta sensação, que estes sentimentos, não representem uma traição à tua vida, uma injustiça à tua herança. Responsabilizo-me sobretudo por não ter estado a teu lado no último dia. Eu sabia que não devia ter ido. Mas asseguraram-me que tratavam de ti na minha ausência, que ias ficar bem. O teu olhar dizia-me para não me preocupar, que estavas estável, que aguentavas. E era só dia e meio, eu voltava rápido, não havia de correr mal. Mas, após aquele telefonema, quando me encontrei com quem já sabia, porque não conseguiram dar-me a notícia por telefone, não precisei de palavras. Olharam para mim e eu soube. Deixei-me cair no passeio, as minhas coisas espalhadas pelo chão, algumas na rua, com carros a passarem-lhes por cima. Eu não queria saber, nada disso me interessava. O meu mundo acabara de ruir, terminara. E eu não tinha estado lá! Não sentiste o meu toque no teu último suspiro, não ouviste a minha voz a confortar-te. Provavelmente sentiste-te abandonada. E a culpa foi minha! Ainda houve quem me dissesse que escolheste assim, que me tranquilizaste para eu ir, sabendo já o que te reservavam as horas seguintes, para me poupares ao sofrimento de ter ver partir. Acredito que tenhas feito isso. Tinhas essa capacidade, isso é certo. Mas mesmo assim acredito que falhei, que devia ter lá estado. Isso aumenta o meu sentimento de culpa. Perdoa-me por isso, peço-te. Mas não me consigo livrar dele. Por isso sofro, por isso tenho estes momentos duros, difíceis. Acredito que isso seja o meu castigo. Ainda agora, escrevo estas linhas e choro. Choro por ti, mas reconforta-me saber que mereço esta pena, por não ter feito tudo. Desculpa-me!
Acredito que ele, o autor, não vai levar a mal que eu o cite, até porque vão ser dados os devidos créditos. Mas não podia deixar de colocar aqui esta frase tão perspicaz e pertinente.
“Não sei o que é mais prejudicial para o meio ambiente: se o derrame da BP no Golfo do México, se as vuvuzelas da Galp.” – Filipe Homem Fonseca, no seu blog.
E não é que as vuvuzelas me irritam profundamente??